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Estudo Bíblico O Projeto Salomão à Luz das Escrituras

 
Pela internet, o “paipóstolo” Renê Terra Nova está convidando todos a participarem do Projeto Salomão.
 

Objetivos e condições:

1 - Conseguir a participação de 2.400 líderes no projeto dos NOBRES.
 
2 – Construir um grande templo
 
3 – As condições para participar do mega projeto
a) Pagamento de R$10.000,00. Essa oferta é chamada de “semente” ou “atitude” de fé, e poderá ser parcelada mediante cheques pré-datados.
b) Os pastores terão como alvo “levantar as Gerações dos Nobres”.
c) As principais condições para ser um NOBRE: a) uma célula de empresários; b) um empresário da cidade ou interno; c) um pastor do mesmo grupo; d) caso algum pastor não tenha condições de ser um NOBRE, levantará um intercessor.
 
4) Recompensa dada aos ofertantes
a) Receberão a UNÇÃO dos Nobres em noite oficial, que será selada no mundo espiritual;
b) Receberão um certificado “no final do projeto para que todos possam se sentir honrados com esse ato profético, pois nós construímos, depois de Salomão, o primeiro palácio para Deus”.
c) Participarão de dois sorteios: Uma passagem para a Terra Santa, e três diárias num hotel cinco estrelas, hotel adequado à nobreza de cada um.
d) Terão o nome “num painel de oração, folheado a ouro, em madeira do Amazonas, para que cada nobre receba, por 24 horas, oração pelas empresas e família, para o resto da vida”.
e) Participar de um sorteio que dará direito a um “jantar de gala com os Apóstolos”.
f) Será honrado por Deus. “Será Nobre todo aquele que, pelas atitudes, direcionarem o coração para o Senhor”. “Juntos – diz o `paipóstolo´, buscaremos mais de Deus para vencermos os desafios que enobrecem a nossa atitude”.
 
5) Justificativas bíblicas apresentadas
a) Havia uma unção de nobreza sobre Salomão, que se vestia com formosura.
b) A nossa geração pode ter o mesmo padrão de opulência de Salomão. O segredo está na UNÇÃO.
c) Como filhos de Deus precisamos viver como Nobres, pois a Bíblia diz: “Ditosa é a terra cujo Rei é Nobre e os príncipes são filhos do Nobre, e se sentam à mesa para refazerem as forças e não para embriaguez” (Ec 10:17).
d) Uma das qualidades do Nobre é a “crença nos atos proféticos para gerar sabedoria”, segundo Isaías 32.8.
e) A Unção de Nobre se resume no seguinte: “Saber o que pedir e para quem pedir. Essa é uma unção que vai além do natural; é sobrenatural! É a unção da sabedoria”!
f) Um Nobre deve entrar no pacto de busca de patrimônio igual ao de Salomão, que ofereceu a Deus mil bois (1 Rs 3.1-15).
g) Malaquias 3.10: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro...”.
h) “Esse pacto ou aliança [adesão ao Projeto] está ligado à entrega de bens e patrimônio como um sinal físico da aliança com Deus. Cada pessoa que quer entrar nessa unção deverá ter uma atitude que fique como um registro da aliança visível, materializada nesse contexto”.
 

Analisemos:

Qualquer esforço para construção de templos será sempre bem recebido. Templos e mais templos devem ser construídos em nosso Brasil e no Exterior, para glória de Deus. Por isso, referido projeto será examinado no que diz respeito às recompensas oferecidas e base bíblica apresentada.
 
Por meio de uma prática ocorrida na igreja dos primeiros anos, sabemos que devemos examinar tudo à luz das Escrituras:
“Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (At 17.11). Isto é, os bereanos só aceitaram de coração os ensinos de Paulo e Silas após cuidadoso exame bíblico. Tal orientação nos diz que tudo deve passar por cuidadoso exame pessoal das Escrituras. A palavra traduzida “examinar” (gr. anakrino), significa investigar; buscar informar-se alcançar um resultado proveniente da investigação, pesquisa, julgamento.
 
Assim, justificados são todos os trabalhos de apologética que tenham por alvo o cuidadoso exame, sem a intenção de fazer prévios julgamentos de caráter pessoal. Portanto, não julgamos a pessoa em si, seu comportamento pessoal, sentimentos e hábitos. Não nos cabe avaliar se uma pessoa é má ou ruim, mas se o que ela ensina está ou não está de acordo com a Palavra. Como o Projeto foi amplamente divulgado, e o convite é extensivo a todos, sinto-me no dever de examiná-lo.
 

Unção dos Nobres

O Projeto enfatiza a necessidade de todos os crentes serem nobres. O que é mesmo ser nobre? Diz o Dicionário Aurélio: “[Do lat. nobile]. Que tem título nobiliárquico; pertencente à nobreza; fidalgo. P. extensão: Que é de descendência ilustre. Muito conhecido, notável, ilustre, célebre. Elevado, alto sublime, generoso, longânime, magnânimo. Nobreza: “Qualidade ou caráter de nobre. O conjunto das famílias ilustres, nobres; excelência, dignidade, magnanimidade, generosidade, longanimidade, majestade, austeridade”.
As condições estabelecidas no Projeto para que um crente seja um Nobre são antibíblicas. Eis as razões:
 
1 – O Projeto exclui a possibilidade de um pobre ser Nobre, porquanto não pode dele participar. Além de, por duas vezes, mencionar a classe empresarial como indispensável ao plano, exige uma contribuição de dez mil reais.
 
2 – È ensinado que será Nobre “aquele que, pelas atitudes, direcionarem o coração para o Senhor”. O contexto do Projeto nos diz que essas “atitudes” são materializadas na oferta de dez mil reais proposta, paga à vista ou em parcelas. Diz também que, depois de cumpridas as exigências pecuniárias, o ofertante receberá, em noite de gala, a Unção de Nobre, a ser oficializada num “certificado”, espécie de título nobiliárquico.
 
Os poucos comentários que li até o presente momento sobre essa Unção foram, com razão, de perplexidade, repulsa e veemente contestação. Mediante a nova vida em Cristo, os crentes são filhos de Deus (Jo 1.12); possuem o Espírito Santo (1 Co 3.16); como filhos, são herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (Rm 8.17); recebem poder para expulsar demônios e curar enfermos, em nome de Jesus (Mc 16.17-18); recebem dons espirituais (1 Co 12); guiados pelo Espírito, são magnânimos, benignos e cheios de paz (Gl 5.22). Além dessas qualidades, aos santos está reservado um lugar no céu (Jo 14.2).
 

Certificado de Nobreza

Os crentes, por sua própria natureza, já possuem o status de nobreza, sejam empresários, sejam pobres. Portanto, o diploma e a unção prometidos se tornam pequenos, insignificantes e desprezíveis diante das muitas bênçãos celestiais dadas aos santos do Senhor. Veja-se o caso de Lázaro, Nobre mendigo que se alimentada das migalhas que caíam da mesa do rico (Lc 16.20.21). O seu certificado de nobreza estava escrito no Livro da Vida. A unção de nobreza já estava garantida, não porque fosse empresário ou acreditasse em “atos proféticos”, mas porque era temente a Deus.
 
A maior riqueza dos crentes não são as terrenas: “Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2.5). Se os pobres são especiais e preciosos para Deus, não podem ser discriminados pela Igreja. A ação discriminatória está evidente no fato de que somente os abastados receberão certificado, unção, placa especial com seus nomes; jantar em noite de gala com os nobres “apóstolos” e o “paipóstolo”, e outros prazeres mundanos. Os privilegiados, ostentando suas insígnias e favores especiais, desfilarão diante dos demais crentes sem direito a títulos de nobreza, oração especial, nomes em placas de ouro. Aliás, esse estilo vem de longe. No culto ao envelope do sacrifício, elogios, aplausos, orações especiais para os que atendem ao chamado pelo valor mais elevado. A prática se assemelha ao mundo empresarial, onde a rica clientela é atendida em salas vip, com direito a atenções especiais do gerente.
 
Nosso mais elevado pacto não está relacionado a projetos humanos, e a nossa mais elevada atitude não se vincula a uma polpuda oferta em dinheiro. Fazemos parte da Nova e Eterna Aliança, cujos termos foram firmados pelo sangue do Cordeiro. Nossa atitude é de fé em Cristo e em suas promessas (Jo 15.7). Portanto, nossa permanência nEle não é assegurada por aderirmos a qualquer projeto. Dizimamos e ofertamos com alegria porque somos salvos, abençoados e nobres diante de Deus.
 

Sabedoria

Ensina o Projeto que a sabedoria é gerada em nós pela crença nos atos proféticos. A Bíblia diz que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10; ver 2.6; 1 Co 3.19); que a sabedoria deve ser pedida a Deus (Tg 1.5). Concluo que a sabedoria via crença em atos humanos não vem do alto. Por isso não é pura, pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia (Tg 3.17). Aquela sabedoria se enquadra na sabedoria cheia de astúcia deste mundo, que é loucura diante de Deus (1 Co 3.19). Salomão pediu sabedoria a Deus (1 Rs 3.9-12; 4.29-31).
 

Sorteios

Entendo que sorteios e rifas na Igreja só podem ser admitidos quando não envolve dinheiro. Se há dinheiro na jogada, o sorteio se equipara a um jogo de azar; graças ao azar da maioria, um ou dois são premiados, como acontece com os jogos oficiais da sena, loteria esportiva, loteria federal, etc. Os santos devem ser exortados a ofertar não pelas recompensas materiais; não pela perspectiva de ganhar uma estada num hotel cinco estrelas ou de ter seus nomes gravados numa placa de ouro, mas pelo amor ao Senhor e à sua Igreja.
 

Painel de oração

A promessa é tão grande que me reservo o direito de não acreditar no seu cumprimento. E se não cumprida, a situação do responsável pelo plano, se complica muito diante de Deus. Vamos repetir: “Terão o nome “num painel de oração, folheado a ouro, em madeira do Amazonas, para que cada nobre receba, por 24 horas, oração pelas empresas e família, para o resto da vida”.
 
“Pelo resto da vida”. Não há explicações sobre como a tarefa será cumprida. Um empresário que se torne um Nobre aos vinte anos, e que ainda esteja vivo no ano 2.090, terá um crédito de oitenta e cinco anos de oração “gratuita”. Como a oração será diariamente sem interrupção, entende-se que haja um ou dois irmãos de plantão permanente, em constante revezamento, orando o tempo todo pelo grupo de Nobres. Sobrará tempo e energia para orar pelos excluídos, pelos pobres, pelas autoridades, pelos mendigos, pelos que não conseguiram o título de nobreza? Talvez tenha havido engano na exposição desse item. É provável que seja apenas 24 horas de oração, cujos benefícios se estendem pelo resto da vida dos beneficiários. Mesmo assim há algo de estranho. E se eles se desviarem, a oração continuará valendo? A propósito, por que madeira da Amazonas? Não serviria madeira de qualquer outra parte do Brasil?
 
As orações devem ser feitas em favor de todos, de empresários e não empresários, patrões e empregados, pobres e ricos; em favor dos que tiveram condições financeiras para ofertar e dos que não tiveram. É discriminatória a oração contínua, dia e noite durante muitos anos, por um grupo de privilegiados e endinheirados irmãos. Está na contramão dos princípios fundamentais da vida eclesial.
 

Unção de nobreza sobre Salomão

O Projeto ensina que “havia uma unção de nobreza sobre Salomão, que se vestia com formosura”. Onde está escrito na Bíblia a respeito dessa unção de nobreza? Entendo que houve uma tentativa de criar uma nova espécie de unção, não bastassem tantas outras existentes no mercado. Salomão, apesar de sua riqueza, não é modelo de santidade para os santos do Senhor. Salvo se o Projeto deseja realçar a riqueza como item indispensável a um Nobre.
 
Salomão andou nos caminhos do Senhor; recebeu conhecimento espiritual especial; edificou o templo do Senhor; experimentou Seu amor, graça e salvação, mas desviou-se e seguiu outros deuses. Seu erro maior e fatal foi o de buscar poder, sucesso, riquezas e prazer sensual; o de tolerar a idolatria e o pecado. Para selar alianças com nações pagãs, teve muitas esposas e concubinas estrangeiras, riquezas e glórias (1 Rs 11.1-8)
 
Os “nobres” citados na Bíblia não estão relacionados com opulência e riqueza, mas com integridade de caráter, dignidade, prestígio, autoridade (Nm 21.18; Jz 5.13; Jó 29.10; Pv 8.16; Is 32.5,8; Lc 19.12; At 17.11; 1 Co 1.26; 4.10). Consideremos que foram chamados de “mais nobres” os bereanos que confrontaram o ensino de Paulo e Silas com as Escrituras, conforme Atos 17.11. Isto é, receberam a palavra com avidez, com desejo ardente de conhecê-la em profundidade.
 

Opulência

O Projeto declara que “a nossa geração pode ter o mesmo padrão de opulência de Salomão. O segredo está na UNÇÃO”. O que é opulência: “Abundância de riquezas. Luxo, fausto. Grandeza, esplendor”. Os crentes são exortados a buscarem opulência via unção de nobreza, alcançada mediante participação no Projeto.
 
Esse item é o que apresenta mais baixo valor espiritual, e o que mais se afasta do ensino do nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus rejeitou essa unção: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”. Respondeu Jesus: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor seu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.9-10). Jesus não começou seu ministério pregando a opulência, mas o arrependimento (Mt 4.17). Jesus dedicou tempo quase exclusivo aos pobres, andou com eles, se fez um deles: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20). Quanto aos que viviam na opulência, disse: “É mais fácil um caminho passar pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Mt 19.24; Lc 4.18; Is 61.1).
 
Jesus repelia com veemência os que zombavam de sua pobreza, ou de sua pregação em prol dos pobres: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Folgai nesse dia, e exultai, porque eis que é grande o vosso galardão no céu” (Lc 16.14; 6.20, 23). A busca insaciável e avarenta pelas riquezas é identificada na Bíblia como idolatria, a qual é demoníaca (1 Co 10.19,20; Cl 3.5). O Projeto Salomão chama todos a serem iguais a Salomão em opulência. Mas a Bíblia ensina que o crente não deve ter essa ambição (1 Tm 6.9-11). Essa unção de nobreza é antibíblica, e como tal não deve ser desejada pelo povo de Deus. Nenhuma unção pode superar à unção do Espírito, no qual fomos selados (Ef 1.13).
 

Considerações finais

É inaceitável a prática de recompensar dizimistas com recepções, condecorações, festas e lisonjas. Tais expedientes dizem respeito ao mundo secular, entre os que procuram servir mais aos homens do que a Deus. Riquezas espirituais são nossas melhores recompensas. Em lugar desses gastos supérfluos, o Projeto deveria contemplar uma ajuda periódica aos membros pobres, viúvas e irmãos desempregados. Por exemplo, vinte por cento de todo o montante arrecadado deveriam ter esse destino.
 
Para maior transparência, indispensável à Igreja de Cristo, deveria ter sido constituída uma comissão especial para acompanhar a movimentação dos recursos, examinar as licitações, elaborar e divulgar relatório com as receitas e despesas para conhecimento da congregação. Dessa comissão participariam, também, membros sem cargos na administração da Igreja.
 
Sem o desejo de fazer qualquer julgamento de caráter pessoal aos responsáveis pelo Projeto, declaro que, em razão das lacunas enumeradas, não me animo a dele participar, direta ou indiretamente.
 
Autor:  Pr. Airton Evangelista da Costa