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Estudo Bíblico Inocência Perdida


       Talvez nunca tenhamos parado para considerar esta questão. Mas, como constataremos, a nossa resposta será importantíssima para a promoção de uma educação equilibrada aos nossos filhos, especialmente nos dias de hoje. É fato que os brinquedos (pelo menos a maioria deles) que fizeram parte da infância dos pais atuais foram substituídos por outros tão diferentes e avançados que nem mesmo os pais conseguem entendê-los. Hoje, os brinquedos antigos são considerados ultrapassados e isso tem-se tornado um obstáculo para que alguns pais consigam obter certos parâmetros e, dessa forma, possam julgar a questão que levantamos. Por isso sugerimos uma reflexão mais atenta sobre o assunto, ou seja, o “mundo dos brinquedos infantis”.
       Traremos à tona ponderações sobre os interesses capitalistas que sustentam este mercado, as ideologias que sorrateiramente podem ser veiculadas por meio dos brinquedos, seus aspectos pedagógico, lúdico e cultural. Esperamos, com isso, poder, pelo menos, propiciar fundamentos para que possamos argumentar se temos ou não razões para suspeitar de algo tão inofensivo.

O brinquedo como promotor de lucro e ideologia

      Surpreendentemente, segundo divulgou a revista Veja1, a indústria do entretenimento está crescendo mais do que a economia global. A consultoria internacional PricewaterhouseCoopers (PwC) indica que, de 2004 a 2008, essa indústria deverá crescer, ao redor do mundo, a uma taxa média de 6,3% ao ano — mais do que a economia global como um todo, cuja expansão será de 5,7% ao ano. Estima-se que a cultura movimente cerca de 1,3 trilhão de dólares em 2004 e 1,6 trilhão em 2008. O segmento que mais deve aumentar no mundo está ligado aos brinquedos. A taxa de expansão dos videogames tem tudo para ser impressionante: 20% ao ano. Só os Estados Unidos deverão movimentar, este ano, cerca de 550 bilhões de dólares em mídia e entretenimento, representando, sozinhos, 42% da economia cultural do mundo.
       Contudo, uma coisa preocupa. Há certos brinquedos que podem estar sendo usados para recrutamento no terrorismo internacional. Na verdade, organizações do Oriente Médio e alguns grupos da Europa, da América Latina e da Ásia transformaram a rede mundial num dos mecanismos mais eficientes para disseminar suas ideologias, recrutar e treinar militantes. O videogame Special Force é um exemplo. Trata-se da simulação de um ataque às forças israelenses. 
 

“É um jogo muito rastreado, pois incita o ódio aos judeus e foi criado especialmente para seduzir crianças e jovens”, disse Brian Jenkins, especialista em terror do centro de estudos Rand Corporation, sediado em Washington.

 
       O objetivo do jogo, com a explosão de um ataque em Israel seguido de imagens de bandeiras daquele país em chamas, é liquidar o maior número de israelenses possível e matar o primeiro-ministro Ariel Sharon. Quem atinge a testa de Sharon com um tiro obtém a pontuação máxima. A recompensa é a frase: “A vitória vem por meio de Alá, de mais ninguém”. O Special Force pode ser jogado em rede, com a participação simultânea de pessoas de diversos países. O professor e pesquisador russo Lev S. Vygotsky (1968–1934) confirma que 
 

“a criança captura os conceitos transmitidos pelo brinquedo e os internaliza para, em seguida, personalizá-los. O seu imaginário realmente funciona como uma incubadora de idéias [...] Uma operação que representa atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente e um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal”.2

 
       Conclusão: o brinquedo pode ser usado numa espécie de operação “Cavalo de Tróia”, uma forma sutil de sabotagem ideológica. Vejamos um pouco mais sobre esta questão.

O que os brinquedos contemporâneos podem incutir na mente das crianças?

       Como o brinquedo é uma representação que a sociedade tem da criança, documentos da Unesco e do Unicef advertem que conteúdos nocivos ao desenvolvimento da personalidade infantil, reproduzidos em certos brinquedos, podem colocar em risco sua característica inocência. Assim, a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, adotada em 1989, no artigo 17, “encoraja o desenvolvimento de orientações apropriadas para proteger a criança de informações e materiais prejudiciais ao seu bem-estar”.3
       Philippe Ariès, em sua obra A história social da criança e da família, publicada em 1981, cita que
 

“em torno dos divertimentos mais naturais, com significado projetivo, como utilização de brinquedos, bonecas, soldadinhos, armas, rodas, que apareciam e desapareciam no decorrer das épocas, estavam representados os valores e concepções que desejavam passar e incutir nas crianças e adolescentes. Se por um lado as nações mais célebres, por seus artistas, artesãos, idealistas, propiciavam às crianças muitos brinquedos e divertimentos sadios, educativos, formadores; por outro, havia, porém, os brinquedos que não deixavam de ser os piores ‘lixos’ que poderiam ser oferecidos. Esta constatação também é feita por Cristina Von e pelo historiador Henri d’Allemagne. Concordam que os brinquedos aparecem como testemunhos modestos dos gostos, das realizações e das guerras de cada época.4 Infelizmente, os brinquedos atuais variam entre brados de guerra, morte, combate, prazer, consumo utilizado pelas crianças, passando pelos jogos eletrônicos utilizados pelos adolescentes e atingindo brinquedos eróticos e jogos nas estrelas utilizados pelos adultos. Em todos eles, está imbuído o desejo de destruir, alienar e consumir”.


       A valorização do brinquedo, como fenômeno significativo e de amplo alcance na formação das mentes infantis e juvenis, bem como dentro da vida cultural das sociedades, é conquista recente. Assim como o livro infantil, diz a Dra. Nelly N. Coelho, da USP, o brinquedo é entendido como uma mensagem (comunicação) entre o autor/adulto (o que possui a experiência do real) e o leitor/criança (o que deve adquirir tal experiência). O que preocupa é qual tem sido o conteúdo dessa mensagem e como ele afeta a formação da criança, sua visão das coisas e sua relação com Deus (1Ts 5.21).5
       A seguir, consideraremos alguns aspectos que envolvem os brinquedos e que poderão nos auxiliar a entender melhor a questão:

O aspecto pedagógico do brinquedo

       Nascido na Alemanha, em 21 de abril de 1782, e filho de família evangélica, Frederico A. G. Fröbel foi o primeiro a colocar o brinquedo no centro do processo pedagógico ao elevar a criança à imagem de Deus. Para ele, a relação da criança com o brinquedo é que antecipa o que ela será mais tarde.6 Paulo S. Oliveira reafirma este aspecto dizendo que o brinquedo possui uma mensagem fechada, preparada pelo adulto para que a criança reitere e reproduza funções, gestos e modos de ser socialmente predominante. Afirma que “cada brinquedo esconde uma relação educativa”.7 Gerard Jones defende como muitos que o brinquedo não afeta a criança.8 Segundo ele, é a criança que atribui valor ao objeto. Contudo, a respeitada pesquisa feita por S. Lebovici e R. Diatkine, sobre o significado e a função do brinquedo na vida da criança, prova o contrário. Constata que “o brinquedo é uma parte contributiva importante no fenômeno de transmissão cultural,”9 por ser um tipo de relação que a criança tem com o mundo do adulto e por ajudá-la em sua organização psíquica.

O aspecto lúdico do brinquedo

       Devido ao seu aspecto lúdico, o interesse pelo brinquedo aparece nos escritos de Horácio e Quintiliano, Erasmo, Rabelais, Tomás de Aquino, Montaigne, Vygostsky e Piaget, entre outros. O lúdico é a qualidade estética que dá sentido ao brinquedo. Por isso, por exemplo, é que os bonecos ganham vida e afetividade. A ludicidade, tida como ciência, “é um instrumento poderoso de apropriação da cultura”, e pode ser usada com fins positivos ou negativos. Para Vygotsky, o lúdico possui “enorme influência no desenvolvimento da criança”. E é abordado por Johan Huizinga como algo vital para a sociedade, devido ao sentido que encerra, sua significação, seu valor expressivo, suas associações, espirituais e sociais, em resumo, como função cultural. É preciso ficar alerta: 
 
“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8).
 
       S. Marli Pires dos Santos e Tzuko Morchida Kishimoto, com amplo material sobre o brinquedo e o lúdico, concluem que o brinquedo contém, em forma condensada, todas as dimensões do desenvolvimento socioafetivo, cognitivo e psicomotor da criança.10

O aspecto cultural do brinquedo

       Gilles Brougère afirma que o brinquedo merece ser estudado por si mesmo, por ser o suporte de uma representação que age como espelho cultural da sociedade. Trata-se de um pedaço de cultura colocado ao alcance da criança. Ele declara:
 

“O brinquedo é um elemento de profunda riqueza. À sua sombra, a sociedade se mostra duplamente: naquilo que é, mas, sobretudo naquilo que se dá a conhecer às crianças. Assim sendo, mostra as suas imagens que faz da infância. É um dos reveladores de nossa cultura. O brinquedo incorpora nossos conhecimentos sobre a criança, ou ao menos, as representações largamente difundidas, que circulam, as imagens que nossa sociedade é capaz de segregar” (1992).11


       Roland Barthes diz que o brinquedo atual é a reprodução em miniatura de objetos para a criança como se ela fosse apenas um homem pequeno. Diz que o brinquedo industrializado é inteiramente socializado, constituído pelas coisas da vida adulta. Ele fornece um catálogo velhaco do que é parte do adulto, incluindo o “lixo tóxico” de valores antibíblicos. A criança é vista só como um consumidor. Pense: a mente de uma criança conceberia seres monstruosos, cruéis e assustadores com caricaturas “demonizadas, sádicas, cheias de pavor e vingança? De onde ela tiraria a idéia de equipá-los com machados, punhais e porretes? Os bonecos, tazos, cards, eletrônicos e os games foram subvertidos. Quem faria um monstro mitológico de brinquedo? Aquela coisinha com chifres, garras afiadas, dentes vampirescos, olhos famintos e sinistros com aquela expressão diabólica, sendo levado de um lado para o outro pela criança! Esses brinquedos, vulgares, usando a expressão de Roland Barthes, são essencialmente um microcosmo adulto.12 Se fossem feitos pela criança, seriam a expressão do imaginário infantil e não um atentado a ele. E aqui está o problema. O brinquedo não é neutro. Ele carrega traços da imaginação de um projetista, que, mesmo sendo brilhante, corre o risco de ser diabólica. A Bíblia alerta que
 
“este tipo de sabedoria não vem dos céus, mas é terrena; não é espiritual, mas é demoníaca” (Tg 3.15 – NVI).

       Conclusão: se a violência, o erotismo, o ocultismo, a feitiçaria ou o anarquismo e o grotesco são parte de uma cultura reproduzida de forma inadequada em brinquedos, podem constituir-se, de fato, num risco real à formação da criança (Dt 18.9-11).

A emancipação e a contaminação do brinquedo

       Walter Benjamin coloca que, no início, o brinquedo era uma peça do processo de produção que ligava pais e filhos. Mas com a industrialização, o brinquedo emancipou-se e foi tirado do controle da família. Tornou-se cada vez mais estranho não só às crianças, mas também aos pais. Transformou-se num negócio, nada mais.13 O brinquedo deixou de ser feito artesanalmente para ser parte de um grupo que constitui a indústria cultural. Este grupo utiliza o brinquedo para traduzir idéias e conhecimentos. Assim, a criança pode ser influenciada por ensinos (códigos culturais) originados num sistema contrário a Deus, ser manipulada pela imaginação dos projetistas e criar vínculos espirituais com os poderes malignos deste mundo tenebroso (Jo 12.31; Ef 2.1,2; 6.10,11; 1Jo 5.19).
       C. S. Lewis observa que
 

“o prazer e a matéria são campos exclusivos de Deus, tudo o que está ao alcance do mal é a distorção dos canais naturais previstos por Deus para a realização do prazer”.14

 
       O que é bom, como o brinquedo, é subvertido e pode, inclusive, ser usado como uma camuflagem maligna.

O perigo do paganismo e do ocultismo

      O que você acha de uma criança brincar com um boneco que caricatura um “demônio”, beijá-lo ou dormir com ele? Não é este o caso do estranho super-herói Hellboy, personagem lançado recentemente no cinema. Segundo as histórias em quadrinhos, ele veio direto das profundezas do “inferno”? Por que alguns bonecos estão sendo usados para retratar o ocultismo, a feitiçaria, a violência e o grotesco de forma tão banal? (1Tm 4.1). Não seria um jeito camuflado e sorrateiro de interiorizar na criança conceitos e valores antibíblicos, já que o brinquedo é um veículo de identidade cultural? Qual seria a melhor forma de o inimigo driblar nossas defesas? Você suspeitaria de algo tão inofensivo? (2Co 11.3,14). Os brinquedos podem incorporar, conforme Tzuko M. Kishimoto, 
 

“um imaginário preexistente criado pelos desenhos animados, seriados televisivos, mundo da ficção científica com motores e robôs, mundo encantado dos contos de fadas, histórias de piratas, índios e bandidos. Ao representar realidades imaginárias, os brinquedos expressam, preferencialmente, personagens sob formas de bonecos, como manequins articulados ou super-heróis, misto de homens, animais, máquinas, monstros”,15

e acrescentamos, até entidades religiosas.

       O boneco é a materialização do personagem originado na imaginação ou na vida real. Por meio dele, este personagem, bom ou ruim, passa a existir num plano, elevação e perfil. O boneco traz o imaginário à existência, com peso, volume, medida e cheiro, com forma no tempo e no espaço. Assim, personagens como o Superman, o Batman, o Homem-aranha, Hellboy, Hulk e outros super-heróis clássicos podem ser encontrados nas mãos das crianças em todo o lugar. Naturalmente, nem todos os bonecos possuem uma conotação negativa. Contudo, o tipo de valores que ele comunicar, conclusivamente, influenciará a formação da criança. Para Umberto Eco, as imagens míticas (super-heróis), reproduzidas em brinquedos, são criadas e difundidas pelos chamados persuasores ocultos com o objetivo de enraizá-las na sensibilidade da pessoa. Há “uma persuasão oculta motivada por fins econômicos determinados”.16 O boneco é um cristalizador dessa cultura.
       Larry McClain afirma que certas criaturas, retratadas em alguns bonecos, que aparecem na arqueologia e na mitologia, não são apenas fruto da imaginação carnal (Sl 38.12, 64.6; Pv 16.30, 23.7; Mq 2.1; At 17.29). Ao contrário, eram, literalmente, entidades demoníacas que surgiram nas civilizações do passado. Esses tipos obscuros, ou esses seres demoníacos, eram representados como parte homem e parte animal em suas características, como o pássaro-homem dos assírios, por exemplo. Os seres retratados são sinistros, com faces contorcidas e caretas demoníacas.17
       Se você encontrar garras ou chifres, cauda flechada ou tridente em algum dos seus bonecos, sem dúvida o fogo lhes faria muito bem, já que o inferno é o lugar de origem deles, apesar de ponderarmos que estes traços estéticos sejam frutos do imaginário popular ao longo dos séculos, nas diversas culturas, pois não temos base bíblica para detalharmos a exata forma e peculiaridades dos anjos caídos.

• Bonecos pagãos

       Se uma criança brincar com a réplica da imagem de uma entidade religiosa, o objeto deixará de ser condenado por Deus? A simples existência da imagem em forma de figuras foi rejeitada por Deus (Dt 7.26). Além disso, houve casos em que figuras e pinturas foram rejeitadas pelo fato de suas representações serem uma afronta a Deus (Ez 8.9,10). Se a Bíblia condena a mera existência da imagem, o que fazer quando um boneco é a representação de um deus pagão? Larry McClain comenta que muitos bonecos vistos nas prateleiras das lojas são réplicas de deuses antigos:
 

“Eles podem ser criaturas parte cavalo e parte homem, peixe e homem, como o deus Dagom, dos filisteus, parte jaguar e parte homem, com a língua pendente sobre o queixo, que é o símbolo universal da possessão demoníaca. Uma das combinações é a do homem-serpente”.

 
       Como podemos ver, não é difícil concluir quem é o mentor de tudo isso!

• Cards pagãos

       Não há nenhum problema nos bonecos como forma de arte. É bom lembrar, apenas, como defende Francis Schaeffer, que mesmo a arte foi profundamente afetada pelo pecado na queda.18 Portanto, encontra-se deformada. No caso dos cards, jogos de interpretação, há portas para personagens e enredos claramente danosos à infância e à juventude. Diversos personagens são transmissores de conteúdos heréticos. Alguns, aliados aos bonecos, comunicam ensinos do odinismo (divindades bárbaras como Odin e Thor), helenismo (Zeus e Hércules), deuses egípcios (Yu-Gi-Oh!), religiões cananéias (Astaroth) e demonismo.
       Pense. Por que diversos brinquedos estão estranhamente impregnados desses conceitos religiosos se o seu propósito deveria ser apenas divertir a criança? Se os brinquedos, segundo Guilles Brougère, são suportes de representações, por que idéias sutis do xintoísmo (mangás), do zen-budismo (Matrix) e da Nova Era (Star Wars) são usadas para inspirar heróis e confeccioná-los? Não seria uma estratégia de incutir estas crenças na mente das crianças (2Co 11.14)? Nicolas Montigneaux defende que o personagem funciona como um espelho que envia à criança uma imagem dupla: a da própria criança e a desejável, com a qual a criança quererá se parecer ou da qual sonhará em se aproximar. O personagem assume, portanto, o lugar de modelo de aspiração porque constitui uma ponte entre o presente da criança e o seu futuro adulto.19

• Super-heróis suspeitos

       Bruno Bettelhein diz que o herói corresponde ao questionamento profundo da criança, que procura encontrar no herói sua identidade. Já o imaginário representa um campo de jogo onde o personagem conduzirá a criança e servirá de pretexto à encenação dos valores.20 Gabriele Greggersen constata que 
 

“em muitos livros de ficção infantis e desenhos animados de hoje (Pokémon, Transformers, Cavaleiros do Zodíaco, etc.), super-heróis que inspiram brinquedos, sem falar nos jogos eletrônicos, ou em Magic, o bem e o mal se opõem diametralmente ou, então, se misturam, chegando quase a ponto de inverter sua polaridade”.21

 
       Isso pode abrir a porta para uma visão ingênua das forças malignas e, assim, criar uma precedência sutil para uma amizade perigosa com o mal. Veja o que diz a Dra. Nelly N. Coelho, especialista em literatura infantil (USP):
 

“As personagens podem ser reais (humanas) ou simbólicas (bichos, plantas), mas sempre com traços de caráter ou comportamento bem nítidos. Isto é, com limites precisos entre bons e maus, fortes e fracos, belos e feios, etc. Mais tarde, a ambigüidade das realidades será descoberta [...] Mas nesse momento, já terão assimilado parâmetros para julgamento”.22


       Gabriele Greggersen afirma que 
 

“o bem é muitas vezes visto como algo ingênuo, inofensivo e afeminado. Eis por que o mal, o bruxo e o feiticeiro acabam sendo mais atraentes”. “O sobrenaturalismo típico dos programas infantis promove o relativismo, uma força ou poder neutro que pode ser usado para o bem ou para o mal”.

 
       Essa indefinição pode abrir uma porta para o lado escuro do sobrenatural. Bob G. Passantino afirma que “eles diferem do sobrenatural dos contos de fada clássicos, nos quais o bem e o mal podem ser distinguidos, a integridade é recompensada e o mal finalmente é vencido pelo bem” (Rm 12.17,21). Segundo C. S. Lewis,
 

“a teoria íntegra do valor [...] exige que o bem seja original e o mal, mera perversão; que o bem seja a árvore, e o mal seja a hera; que o bem seja capaz de perceber o mal (como quando homens sãos percebem a loucura), enquanto o mal não pode fazer o mesmo...”.

 
       Ele acrescenta, por meio do personagem Screwtape, em sua obra Cartas do diabo ao seu aprendiz, que “um santo estragado [...] propicia mais diversão ao inferno do que um simples tirano ou um libertino”. Se ele não consegue destruir, argumenta, então é melhor tentar corrompê-lo (2Co 2.11; 11.3).23

Os games e as imagens grotescas

       Não é novidade que diversos jogos estão coalhados de satanismo, barbarismo, ocultismo e violência extrema. Conforme estudos promovidos pela Universidade de Missouri, Columbia, EUA, um universo de imagens com grande carga emocional, como o encontrado nesses games, pode levar a um comportamento anti-social, à agressividade e a um mau desempenho escolar (Ef 5.11; Fp 4.8). A ONU revela que tais imagens causam fortes impressões. Umberto Eco confirma que “a imagem está revestida de uma função demasiado importante para o equilíbrio psíquico do indivíduo”. Isso complica quando a criança, acrescenta N. Montigneaux, 
 

“raciocina espontaneamente de maneira analógica. As imagens integram a estruturação não só do pensamento como também da sua vida emocional”.

 
       Por isso a ONU encoraja a proteção da criança contra tais conteúdos (Sl 119.37; Mt 6.22,23).

Crianças em perigo

       O que acontecerá, então, com a criança que está em contato permanente com essas mensagens enganosas? Que risco ela corre se absorver, de forma acrítica, essas idéias alienígenas à infância? Elas podem afetar a visão que a criança terá das coisas? Lev .S. Vygotsky declara que “como o foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo ele mesmo uma grande fonte de desenvolvimento”. Se a criança internaliza valores e crenças por meio do brinquedo, certamente o conteúdo que ele abriga tomará parte na formação da sua lente cultural, tornando-se híbrida com ela. Isso se dará porque o seu conhecimento ainda está em construção. A criança poderá, deste modo, ser presa fácil das trevas, já que ela terá dificuldade de ver o que é maligno. É preciso livrar a criança da aparência do mal:
 
“Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal. E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo”. (1Ts 5.21-23).

       É preciso proteger a criança de conteúdos danosos à sua infância: 
 
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23. V. tb. Sl 119.37).
 
       É preciso discipular a criança com valores centrados nos ensinos de Jesus (Mt 28.18-20), e ensiná-la no caminho que deve seguir:
 
“E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te (Dt 6.6,7. V. tb. Pv 29.15; 22.6; Sl 127.3).

Dicas para escolher brinquedos e proteger nossas crianças

  • Leia as instruções que acompanham o brinquedo. Você ficará surpreso com o que vai encontrar! Procure identificar associações com conteúdos que podem ser prejudiciais à criança.
  • Tente conhecer o personagem representado no brinquedo. O brinquedo é apenas o seu suporte físico. Que tipo de acessórios possui? São heróis, vilões, deuses? O que podem transmitir à criança?
  • Não veja demônios em tudo, use a Bíblia e o bom senso. A Bíblia é a bússola para auxiliá-lo na avaliação do conteúdo cultural nocivo:
 
       Para C. S. Lewis, há dois erros acerca do inimigo: o primeiro é não acreditar em sua existência. O segundo é acreditar e nutrir um interesse excessivo e doentio nele (1Pe 5.8). Não devemos descartar a ação dos espíritos malignos, mas também não devemos ver demônios em tudo.
       Este estudo apenas alerta sobre os conteúdos inadequados, sem excluir o brinquedo, que pode ser santificado como fonte de lazer (1Ts 5.21-22). O pacto de Lausane defende que o evangelho nunca é hóspede de qualquer cultura; sempre é seu juiz e redentor. O evangelho avalia o conteúdo cultural, inclusive o que está embutido no brinquedo, de acordo com seus próprios critérios de verdade e justiça, e insiste nos absolutos morais em cada cultura.
       A confissão de Westminster orienta que
 

“todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”.


Textos bíblicos que podem ajudar na avaliação de conteúdos ocultos em alguns brinquedos

  • Bruxaria – Lv 19.31; Is 8.19-22; Ez 13.18-21; 21.21-24; Ap 18.23.
  • Demônios – Mc 1.34; 5.5; Lc 10.17; At 16.16-18; 2Co 11.13,14; Ef 6.12.
  • Deuses ou seres mitológicos – Êx 10.2-6; 32.4-10; Dt 4.23,24; 5.6,7; Is 42.8.
  • Imagens grotescas – Sl 101.2-7; Ez 8.9-10; Mt 6.22,23; Fp 4.8.
  • O mal – Jó 4.8; Sl 19.13; 26.5; Rm 1.24-28; Gl 5.16,17; Ef 4.22; 6.12.
  • Objetos ligados ao ocultismo – Ez 13.18-23; At 19.19; Dt 7.26,27.
  • Ocultismo – Dt 4.8; Ez 13.18-23; 21.21-24; Is 65.3,4; At 13.8-10; 19.19.
  • Poder – Ec 9.11; Pv 21.31; Zc 4.6; Mt 5.1-12; Rm 12.19; 1Jo 2.6.
  • Violência – Sl 37.17; 75.10; 140.11; Pv 3.31; 16.29; 21.7; Is 13.11.


Notas:

1 Veja. 21 de julho, 2004. p. 111.
2 Citado por SOUZA, Solange e Jobim. Infância e linguagem, Bankhtin, Vygotsky e Benjamim.Campinas: Papirus, 1994, p. 125-6.
3 FEILITZEN, Cecília Von e CARLSON, Ulla. A criança e a violência na mídia. São Paulo: Cortez e UNESCO, 2002, p. 11-3.
4 VON, Cristina. A história do brinquedo. São Paulo, Alegro, 2001.
5 COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ed. Moderna, 2000, p. 30-1.
6 GUILLES, Brougère. In: Études et Documents, n. 2: 1989-1990. Paris: Université, Paris-Nord\Département des Sciences du Jeu, p. 9.
7 OLIVEIRA, Paulo de Salles. O que é brinquedo. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 42-3.
8 JONES, Gerard. Brincando de Matar Monstros. São Paulo: Conrad, 2004, p. 298.
9 LEBOVIC, S. Lebovici e DIATKINE, R. Significado e função do brinquedo. Porto Alegre: Artmed, p. 63.
10 Consulte as seguintes obras:
SANTOS, Santa Marli P. Org. A ludicidade como ciência. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 226.
SANTOS, Santa Marli P. Brinquedoteca, o lúdico em diferentes contextos. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 141.
SANTOS, Santa Marli P. Org. A ludicidade como ciência. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 226.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Org. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2002, p. 183.
ALVES, Rubem. O enigma da religião. Campinas, Papirus, 1984, p. 120.
VYGOTSKY. S. A Formação da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.126.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 3,4.
11 GUILLES, Brougère. Cit., p. 7 . GUILLES, Brougère. In: Études et Documents, n. 2: 1989-1990. Paris: Université,
Paris-Nord\Département des Sciences du Jeu, p. 9.
12 BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Difel, 2003, p.59-60.
13 BENJAMIN, Walter. Reflexões Sobre a Criança, o Brinquedo e a Educação. São Paulo: Duas Cidades, Ed 34, 2002, p. 91-2.
14 LEWIS, C. S. Cartas do diabo ao seu aprendiz. Petrópolis, Vozes.
15 SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância. Petrópolis: Vozes, 1999.
16 Consulte as seguintes obras:
KISHIMOTO, T. M. Citado em O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2002, p.28.
ECO, HUMBERTO. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 243-6.
17 JEREMIAH, David e CARLSON, C.C. A invasão de deuses estranhos. São Paulo: Quadrangular, 1995, p. 95-6.
18 SCHAEFFER, Francis A. O Deus que intervém. Refúgio ed. 1985.
19 MONTIGNEAUX, N. Público-alvo: crianças. Rio de Janeiro: Ed. Negócio, 2003.
20 BETTELHEIM, Bruno. Uma vida para seu filho. São Paulo: Ed. Campus, p. 184.
21 GREGGERSEN, Gabriele. O Senhor dos anéis. Viçosa, ULTIMATO, 2003, p. 76.
22 COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo, Moderna, 2000, p. 35.
23 LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: ABU, 1985, p. 49. e Op. Cit. p. 99.


Autor:  Édino Luiz de Melo