Procure

Festa dos Tabernáculos - Retorno às Sombras

 
Igrejas há que promovem a Festa dos Tabernáculos e incentivam todos a dela participarem. Esse evento é espiritualizado e trazido para a atual dispensação como anunciador da vinda do Senhor. Eis o que encontramos num site:
“As festas bíblicas são ordens sagradas do Senhor. Elas não são apenas judaicas; são, antes de mais nada, do Senhor, declaradas como estatuto eterno (Lv. 23:1-44). Essas festas não são um convite para que a Igreja volte à primeira aliança, mas para sustentar a mensagem que elas transmitem. Elas apontam para o fim, para o Cordeiro e falam da parousia, ou seja, a segunda vinda do Messias. Tabernáculo é a preparação, por fé, do caminho do Senhor; é caminhar trabalhando, tirando as pedras, deixando o caminho livre e seguro para que todos possam ver o Rei entrar. Tirar as pedras do caminho é profético para poder estabelecer e anunciar que o Senhor está voltando”.
 
Está escrito que as solenidades e festas enumeradas no capítulo 23 e Levítico fazem parte do antigo pacto, ao qual estavam vinculados os “filhos de Israel” (Lv 23.1). As solenidades eram as seguintes: Festa dos Tabernáculos e Dia da Expiação, na estação do cultivo das terras; Festa das Trombetas, no ano novo; Primícias, Pães Asmos e Festa da Páscoa, nas chuvas tardias e colheita de cevadas; Festa do Purim, nas chuvas tardias; Festa de Pentecoste ou das semanas, na estação da vinicultura. A maioria dessas festas sagradas, também chamadas de “santas convocações”, se relacionava com as atividades agrícolas e os acontecimentos históricos da nação hebréia, e foi instituída como parte do concerto do Sinal (Ex 23.14-19). Todos os varões israelitas estavam obrigados a participar das três festas dos peregrinos: Páscoa, Pentecostes e dos Tabernáculos.
 
A finalidade da Festa dos Tabernáculos era lembrar ao povo a bondade de Deus para com ele durante seus quarenta anos no deserto, sem habitação permanente. Também chamada Festa da Colheita, porque ela comemorava o término da colheita dos frutos e nozes do verão.
 
Diante disso, há de se perguntar: o cristão do novo concerto é obrigado a fazer parte dessas festas? É dever da Igreja de Cristo promovê-las? Quem delas não participar está de algum modo em pecado? Vou tentar responder a essas indagações. Tem havido dúvidas sobre o que está valendo e o que não está valendo com relação ao Antigo Testamento. Focarei o assunto da Festa dos Tabernáculos. O Senhor disse: “Celebrareis esta festa por sete dias cada ano; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações. Sete dias habitareis debaixo de tendas; todos os naturais em Israel habitarão em tendas, para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei do Egito. Assim, pronunciou Moisés as solenidades do Senhor, aos filhos de Israel” (Lv 23.41-44).
 
Estatuto perpétuo – Lemos no artigo acima citado que essas festas “não são apenas judaicas”, pois se trata de estatuto perpétuo. Quer dizer que a Igreja deve promovê-las por todos os séculos dos séculos até a vinda de Jesus? Se a resposta for afirmativa, (1) cumpramos também, por ser “lei perpétua”, a solenidade das “Primícias”, observando todas as exigências ali previstas (Lv 23.14); cumpramos também, por ser “lei perpétua”, o “Pentecostes”, observando todos os requisitos da ordenança, bem como o sacrifício de animais (Lv 23.21); observemos também o Dia da Expiação por ser “estatuto perpétuo”; este é um dia especial de aflição; mas cuidado: “Toda alma que, naquele mesmo dia, não se afligir será extirpada do seu povo”; e se fizer alguma obra será destruída (Lv 23.29-31); celebremos também a Páscoa com sacrifício de animais, tal como ordenado pelo Senhor, por ser “estatuto perpétuo” (Ex 12.14); observemos também os “contínuos holocaustos” [por toda a vida] ordenados pelo Senhor: “Um cordeiro sacrificarás pela manhã e o outro cordeiro sacrificarás de tarde” (Nm 28.3-4); nas cerimônias de consagração, cumpramos, por ser “estatuto perpétuo”, o ritual de degola de um “novilho perante o Senhor, à porta da tenda da congregação”, e “derramarás o sangue à base do altar” (Ex 29.11-12). Enquanto não surgiu a nova e eterna aliança em Cristo, valeu a perpetuidade dos estatutos do antigo concerto.
 
Diz também o texto acima que essas festas devem ter continuidade para sustentar a mensagem anterior e preparar o povo para a volta do Senhor. Nada mais inconsistente. A Festa dos Tabernáculos tinha uma finalidade: “Para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito” (Lv 23.43). O povo então se lembrava da bondade de Deus durante os quarenta anos no deserto. Logo, não se pode sustentar essa mesma mensagem nos dias atuais. Também não serve como preparação para a vinda do Senhor. Somente com obediência irrestrita e fé inabalável estaremos preparados. Cristo é o ministro do verdadeiro tabernáculo, não feito por homem (Hb 8.2). Jesus é o Mediador de um melhor concerto, firmado em melhores promessas. Se o concerto anterior fosse irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para o segundo (8.6-7). Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção (v. Hb 9.1-28). A Festa dos Tabernáculos era sombra das coisas futuras. Voltaremos às sombras?
 
O Antigo e o Novo Concerto – “Os capítulos 8-10 do livro de Hebreus descrevem numerosos aspectos do antigo concerto tais como o culto, as leis e o ritual dos sacrifícios no tabernáculo; descrevem os vários cômodos e móveis desse centro de adoração do Antigo Testamento”. É duplo o propósito do autor: (1) contrastar o serviço do sumo sacerdote no santuário terrestre, segundo o antigo concerto, com o ministério de Cristo como o sumo sacerdote no santuário celestial segundo o novo concerto; e (2) demonstrar como esses vários aspectos do antigo concerto prenunciam ou tipificam o ministério de Cristo que estabeleceu o novo concerto. O presente estudo sintetiza o relacionamento entre esses dois concertos.
 
(1) Segundo o antigo concerto, a salvação e o relacionamento correto com Deus provinham de um relacionamento com Ele à base da fé expressa pela obediência à sua lei e ao sistema sacrificial desta. Os sacrifícios do AT tinham três propósitos principais: (a) Ensinar ao povo de Deus a gravidade do pecado. O pecado separava os pecadores de um Deus santo, e somente através do derramamento de sangue poderiam reconciliar-se com Deus e encontrar perdão (Ex 12.3-14; Lv 16; 17.11; Hb 9.22). (b) Prover um meio para Israel chegar-se a Deus mediante a fé, a obediência e o amor (cf. Hb 4.16; 7.25; 10.,1). (c) Indicar de antemão ou prenunciar (Hb 8.5; 10.1) o sacrifício perfeito de Cristo pelos pecados da raça humana (cf. Jo 1.29; 1 Pe 1.18,19; Ex 12.3-14; Lv 16).
 
(2) Jeremias profetizou que, num tempo futuro, Deus faria um novo concerto, um melhor concerto, com o seu povo (ver Jr 31.31-34; cf Hb 8.8-12). É melhor concerto do que o antigo (cf. Rm 7) porque perdoa totalmente os pecados dos que se arrependem (Hb 8.12), transforma-os em filhos de Deus (Rm 8.15-16), dá-lhes novo coração e nova natureza para que possam, espontaneamente, amar e obedecer a Deus (Hb 8.10; cf. Ez 11.19,20), os conduz a um estreito relacionamento pessoal com Jesus Cristo e o Pai ((Hb 8.11) e provê uma experiência maior em relação ao Espírito Santo (Jl 2.29; At 1.5,8; 2.16,17, 33, 38,39; Rm 8.14,15, 26).
 
(3) Jesus é quem instituiu o novo concerto ou o novo testamento (ambas as idéias estão contidas na palavra grega diatheke - testamento), e seu ministério celestial é incomparavelmente superior ao dos sacerdotes terrenos do AT. O novo concerto é um acordo, promessa, última vontade e testamento, e uma declaração do propósito divino em outorgar graça e bênção àqueles que se chegam a Deus mediante a fé obediente. De modo específico, trata-se de um concerto de promessa para aqueles que, por fé, aceitam a Cristo como Filho de Deus, recebem suas promessas e se dedicam pessoalmente a Ele e aos preceitos do novo concerto. (a) O ofício de Jesus Cristo como mediador do novo concerto (Hb 8.6; 9.15; 12.24) baseia-se na sua morte expiatória (Mt 26.28; Mc 14.24; Hb 9.14,15; 10-29; 12.24). As promessas e os preceitos desse novo concerto são expressos em todo o Novo Testamento. Seu propósito é: salvar da culpa e da condenação da lei todos os que crêem em Jesus Cristo e dedicam suas vidas às verdades e deveres do seu concerto (Hb 9.16,17; cf. Mc 14.24; 1 Co 11.25); e fazê-lo um povo que seja a possessão de Deus (Hb 8.10; cf. Ez 11.19.20; 1 Pe 2.9). (b) O sacrifício de Jesus é melhor que os do antigo concerto por ser um sacrifício voluntário e obediente de uma pessoa justa (Jesus Cristo), e não um sacrifício involuntário de um animal. O sacrifício de Jesus e o seu cumprimento da vontade de Deus foram perfeitos, e, portanto, proveu um caminho para o pleno perdão, reconciliação com Deus e santificação (Hb 10.10,15-17). (c) Todos os que pertencem ao novo concerto por Jesus Cristo recebem as bênçãos e a salvação oriundas desse concerto mediante sua perseverança na fé e na obediência. Os infiéis são excluídos dessas bênçãos.
 
(4) Estabelecido o novo concerto em Cristo, o antigo concerto se tornou obsoleto [que caiu em desuso] (Hb 8.13). Não obstante, o novo concerto não invalida a totalidade das Escrituras do AT, mas apenas as do pacto mosaico, pelo qual a salvação era obtida mediante a obediência à Lei e ao seu sistema de sacrifícios. “O Antigo Testamento não está abolido; boa parte da sua revelação aponta para Cristo, e por ser a inspirada Palavra de Deus, é útil para ensinar, repreender, corrigir e instruir em retidão” (Bíblia de Estudo Pentecostal - BEP).
Nada impede de serem realizadas tantas festas quantas quiserem, desde que conservado o espírito solene, a decência e a ordem, e seja para glória de Deus. Todavia, não se pode ensinar que as festas judaicas para os dias atuais decorram de ordem e que sejam indispensáveis à santificação ou a maior comunhão com Deus; que abram caminho para a volta do Senhor. Ensinar, por exemplo, que a não participação resulta em perda da bênção contraria em muitos pontos a Palavra de Deus. Não mais estamos sujeitos ao cumprimento de solenidades próprias dos judeus (Jo 7.2), que eram sombras de coisas futuras. Em Cristo, já experimentamos esse porvir; fomos constituídos templos do Espírito e podemos com confiança chegar ao trono da graça, o verdadeiro tabernáculo, onde está assentado o Sumo Sacerdote (Hb 4.16; 8.1-2; 12.2).
 
Sombras
“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2.14-17- Almeida CF).
Comentário - O “riscar a cédula” é uma referência à lei de Moisés, isto é, aos mandamentos que indicavam a conduta certa do homem, mas que não lhe podiam dar vida nem o poder para obedecer a Deus (Gl 3.21). A salvação mediante o concerto do AT foi cravada na cruz (ou seja, abolida), e Deus estabeleceu um concerto melhor, por meio de Cristo e através do seu Espírito (2 Co 3.6-9); Hb 8.6-13; 10.16,17, 29; 12.24). As duas primeiras palavras (comer, beber) provavelmente se referem às regras judaicas sobre alimentação do AT, que os colossenses eram pressionados a observar como necessidade para a salvação pelos falsos mestres. “Dias de festas”, “lua nova” e “sábados” provavelmente se referem a determinados dias sagrados de observância obrigatória no calendário judaico. O apóstolo Paulo ensina que o cristão está livre dessas obrigações legais e cerimoniais (Gl 4.4-11; 5.1)” (BEP).

Ouçamos mais uma vez o apóstolo: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco. Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou [liberdade do jugo da lei] e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão” (Gl 4.9-11; 5.1).

“Rudimentos fracos”, isto é, impotentes para resgatar vidas; “pobres”, porque não podem aumentar a riqueza espiritual daqueles que são herdeiros de Deus (Gl 4.7; 1 Co 1.5; 3.21-23; 2 Co 8.9; Tg 2.5). O apóstolo roga aos gálatas que se livrem das ordenanças judaicas: “Rogo-vos que sejais como eu” (4.12). Ele lançou por terra a carga da lei judaica a fim de colocar-se no nível de seus convertidos gentios: “Eu sou como vós” (O Novo Comentário das Bíblia).

“Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre” (Gl 4.22). A ilustração objetiva demonstrar a diferença entre o antigo e o novo concerto. Agar representa o antigo concerto, firmado no monte Sinal (v.25); os seus filhos vivem agora sob esse concerto e nascem segundo a carne (v.23), isto é, não têm o Espírito Santo. Sara, a outra esposa de Abraão, representa o novo concerto; os seus filhos, isto é, os crentes em Cristo, têm o Espírito e são verdadeiros filhos de Deus” (ibidem).

A Festa dos Tabernáculos faz parte do antigo concerto. Estamos hoje em novidade de vida, sob os termos da nova e eterna aliança que tem como Mediador Jesus Cristo. Não nos convém voltar ao deserto e habitar em tendas. Não nos convém retornar às solenidades do passado que, como sombras do que viria, apontavam para uma realidade futura. Cristo é a nossa realidade. Seria mais útil distribuir com os pobres o elevado montante de dinheiro que se gasta com essas festas.
 
Autor:  Pr. Airton Evangelista da Costa